08/01/2018

COM DEUS NO PARAÍSO

“Bernardo m´accennava e sorridea

perch´io guardassi suso; ma io era

già per me stesso tal qual ei volea.”

(Divina Comédia III, XXXIII, 49-51)


Para aliviar os sofrimentos da tragédia política que se abateu sobre o país com o impedimento de uma Presidente honesta e eleita pelo povo, e em seguida os sofrimentos por ocasião de sua própria morte, minha cara Judite, entreguei-me em agosto de 2016 à leitura do Paraíso, terceiro volume da Exposição da Divina Comédia, do crítico italiano Ernesto Trucchi, terminado providencialmente no dia 12 de outubro de 2017, feriado de Nossa Senhora Aparecida.

Durante mais de um ano, portanto, vivemos – o poeta Dante, símbolo da inquieta humanidade, e eu, leitor apaixonado de sua obra maior – a caminhar/ voar pelos nove céus/planetas do Paraíso, conduzidos por Beatriz, “que sempre mais se enriquece de luz e de beleza”, até chegarmos à maravilhosa Rosa celeste no Empíreo, onde ela cede o espaço ao místico São Bernardo a nos guiar até o fim. Beatriz simboliza a Teologia; e Bernardo, a Mística.

Quais eram os céus/planetas da cosmologia da Idade Média dos séculos 13/14 d.C. para os quais se dirigiam todos os salvos? Eram: 1º Lua, aonde vão espíritos que não cumpriram os votos; 2º Mercúrio, espíritos ativos; 3º Vênus, espíritos amantes; 4º Sol, espíritos sábios; 5º Marte, espíritos militantes; 6º Júpiter, espíritos justos e pios; 7º Saturno, espíritos contemplativos; 8º Estrelado, espíritos triunfantes; 9º Primeiro Móvel, hierarquias angélicas. Segue o Empíreo, sede de todos os felizes e de Deus, Primeiro Motor imóvel. Deus é um ponto.

Percebi, porém, tanto na leitura dos Cânticos anteriores (Inferno e Purgatório), quanto no Cântico do Paraíso, que Dante em sua dura, dolorosa e alegre ascensão, é sempre conduzido por alguém: por Virgílio, símbolo da Filosofia ou da Razão; por Beatriz, símbolo da Teologia ou da Fé; e, ao final, por Bernardo, símbolo da Mística. Não se caminha sozinho nessa vida. Para avançar precisamos de alguém a fim de responder a nossas intermináveis dúvidas.

O poeta Dante, imagem do ser humano, de inteligência aguçada, expõe sempre a seus guias, ao longo do caminho – no Inferno, no Purgatório e no Paraíso – as muitas dúvidas a lhe brotar na alma. E os guias vão esclarecendo. E tão educadores são os condutores que, algumas vezes, o simples olhar do discípulo é suficiente para adivinhar suas dúvidas. E olhe que até no Paraíso o poeta Dante é mordido por dúvidas de seu espírito, mas é sempre atendido.

Duas características maiores de Dante Alighieri notei ao longo da leitura da Divina Comédia: a busca pela Liberdade (especialmente no início do Purgatório) e a questão da dúvida a pervagar pelos três reinos do Além, no Inferno, no Purgatório e no próprio Paraíso. Se pela Liberdade se dá até a vida, para se esclarecer a dúvida, nascida sempre ao pé de toda certeza, há que se buscar mestres como Virgílio, como Beatriz, e como Bernardo.

Interessante também verificar como o poeta italiano passa dos apertos escuros e desesperados dos círculos do Inferno; avança pela subida difícil e apertada da montanha do Purgatório; e se expande no terceiro Cântico (Paraíso)

a viajar de planeta em planeta, como se a liberdade e a graça, operando no coração do homem, o fossem conduzindo para espaços sempre mais amplos, até chegar à Cândida Rosa onde estão felizes e realizados os bem-aventurados todos do Antigo e do Novo Testamento.

No Paraíso não são todos iguais, mas são todos felizes. Como copos de diversos tamanhos, mas todos sempre cheios. Quem dera que aqui na terra vivêssemos como os santos do Paraíso: um diferente do outro, mas todos igualmente felizes. Era isso por certo que Dante Alighieri sonhava para a Itália e a Europa de seu tempo: povos diferentes com uma autoridade espiritual (Papa) e uma autoridade política (Imperador) buscando o bem comum dos povos.

Não há disputas entre os bem-aventurados do Paraíso, pois ali reina a verdadeira paz, já que Deus é tudo em todos. Não se pense, no entanto, que o poeta italiano não aproveita sua andança pelo Paraíso para criticar o Poder Espiritual e o Poder Temporal de seu tempo. Para ele a Águia (poder temporal) e a Cruz (poder espiritual) têm de andar juntas, uma complementando a outra.

Dante Alighieri não duvidou colocar Papas no Inferno, nem Trajano, “um dos imperadores mais justos, sábios e valorosos nas armas” no Paraíso. Por estar no Paraíso o poeta sonha com a cidadania universal, a cidadania celeste, tão diferente da cidadania terrestre com suas inevitáveis limitações, não apenas por parte do cidadão, quanto pelo abuso das autoridades, seja da Igreja, seja do Estado. É no Paraíso que Dante investe também contra sua Florença corrupta.

Um dos cantos mais empolgantes para mim, na leitura do Paraíso,  desenvolve-se no céu quarto ou do Sol, onde vivem as almas dos sábios, sobressaindo aí a pessoa de São Tomás de Aquino. O dominicano frei Tomás, mestre de Dante, faz o elogio de São Francisco de Assis, fundador dos chamados franciscanos. Ora, naquele tempo, muitos franciscanos e dominicanos não se entendiam, e disputavam na Universidade.

E Dante os critica de modo inteligente. O poeta italiano propõe como modelos aos frades das ordens mendicantes, os grandes fundadores (Domingos e Francisco) daquelas instituições. E faz com que o genial dominicano Tomás de Aquino elogie Francisco de Assis, desposado com sua amada e santa Pobreza. E faz com que o místico franciscano Boaventura elogie em São Domingos o defensor da Igreja periclitante. No Paraíso um tapa com luva de pelica, eis tudo.

Até chegarmos – Dante e eu – através da Mística, sempre acima da Filosofia (Virgílio), e acima da própria Teologia (Beatriz), e apenas pela graça de Deus e  não por mérito nosso, ao final do Paraíso. Obtemos então um raio de luz sobre os dogmas da Trindade e da Encarnação do Verbo, quando percebemos que nossa vontade é fazer a vontade de Deus. E no último canto (XXXIII) do Paraíso o poeta italiano coloca na boca de São Bernardo o poema mais belo jamais escrito sobre a Virgem Maria. Começa assim:

“Vergine Madre, figlia del tuo Figlio, / sublime ed alta, più che creatura...”, tão claros se nos apresentam os versos que nem preciso traduzir. Toda a grandeza da Santa Mãe de Deus, a Virgem Maria, se explica pela Encarnação do Verbo, que está essencialmente ligada à Trindade. E é para viver eternamente com Maria, e com os Santos todos no Paraíso, gozando para sempre da presença da Trindade que tem sentido a difícil vida humana.


LETTERIO SANTORO – 07.01.2018

Membro da APEG (Associação de Poetas e Escritores de Garça)



 

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