04/01/2018

LEITURA DO POEMA DA VIRGEM

Concluí, depois de onze meses (de 23.01 a 19.12.2017), a leitura do longo Poema da Virgem, de autoria do jesuíta Pe. José de Anchieta, apóstolo do Brasil, escrito em latim no século XVI (1563?), em tradução portuguesa em ritmos de Armando Cardoso S.J., precedida de um estudo elucidativo sobre o autor e sua obra, feito em 1953 em preparação ao Quarto Centenário da cidade de São Paulo (1954). A travessia do “Eloquar an taceam” (Cantar ou calar) da abertura até ao “só a heróis / compete tanta glória!”, últimos versos da dedicatória final do livro, praticamente desconhecido na literatura, foram precisos onze meses.

Adquiri o livro há mais de sessenta anos (1954), e jamais havia lido antes o “De beata Virgine Matre Dei Maria”, ou o Poema da Virgem, do agora São José de Anchieta, missionário dos primeiros tempos do Brasil Colônia, embora sempre me acompanhasse ao longo do vida, como um dos primeiros livros a formar minha pequena biblioteca desde o fim da infância. Antes de 2017 impressionava-me mais a história de Anchieta, especialmente seu papel de refém na Confederação dos Tamoios, quando teria escrito o Poema da Virgem na praia de Iperoig (Ubatuba), como mostra lindamente o quadro de Benedito Calixto.

Mas foi além minha admiração por Anchieta, a ponto de compor em sua honra, em 21.09.2009, um soneto denominado “Consolação da Poesia”, imaginando o bom jesuíta a ocupar seu tempo de refém a escrever nas praias de Ubatuba o Poema da Virgem que eu agora, aos 77 anos, acabo de ler. E Anchieta teria escrito seus metros à maneira do poeta latino Ovídio Nasão, exilado pelo imperador César Augusto, cujos escritos o jovem jesuíta apreciava nos bancos da Universidade de Coimbra. Anchieta sempre me impressionou porque ele se servia da poesia e de cartas para ensinar e informar.

No Pátio de Colégio, no Centro da Capital Paulista, visitei o Museu onde ganhei um exemplar de suas Cartas, na época o equivalente, segundo o organizador, ao google de nossos dias na internet. As Cartas continham o conhecimento, as informações indispensáveis da época (século XVI). Até que finalmente, em 23.01.2017, chegou a vez de conhecer o pensamento e os sentimentos religiosos, transferidos com graça e inspiração para os versos do Poema da Virgem. À medida que avançamos na leitura dos cinco Cantos do Poema, percebe-se nitidamente que não foram escritos no cativeiro em Ubatuba.

Eis as cinco partes de que se compõe a obra: 1) da Infância de Maria; 2) da Encarnação do Verbo; 3) da Natividade de Jesus; 4) da Infância de Jesus; e 5) de sua Paixão e Glória. Ao longo do Poema da Virgem se notam influências de alguns livros da Bíblia, especialmente do Cântico dos Cânticos; de obras de Santos Padres como São João Crisólogo e de São Bernardo, escritores místicos de que ele se abeberava; e até de Gil Vicente, talvez colega seu na Universidade de Coimbra. Curiosidade histórica do erudito Pe. Serafim Leite S.J.: “O poema latino de Anchieta De Beata Virgine Dei Matre Maria é o primeiro grande poema literário escrito no Brasil”.

Mas o crítico Jônatas Serrano comenta que Anchieta com o Poema à Virgem “revela-se o erudito, herdeiro do melhor da Cultura clássica, o primeiro nas terras virgens da América, primeiro em antiguidade e quiçá em valor em todo o seu século”. Mas voltemos ao Poema da Virgem da minha leitura. Com exceção de dois ataques – um a Helvídio por negar a perpétua virgindade de Maria, e outro contra Calvino por negar o voto de virgindade de Maria – o Poema da Virgem é um livro místico, para ser rezado como contínua oração, oração que é toda ela de um devoto da Virgem Maria, àquela que o protege dos males.

Porque do começo ao fim é uma oração dirigida à Santa Mãe de Deus pedindo proteção celeste para aqueles meses de aflição como refém dos índios tamoios, enquanto aconteciam as negociações. E há no Poema de Anchieta momentos realmente encantadores, como a “Oração da Mãe ao Filho recém-nascido”, em meio à qual estão os “Louvores da Virgem pelo alfabeto” no Canto III. Veja, leitora atenta, veja este versos: “Com estes paninhos, ó Autor e Dominador do mundo / cobrirei os teus mimosos membros. / Que a tua duríssima penúria enriqueça / nossa miséria, / cumulando de graças corações mendigos”.

Há mais, porém. Há o “Hino de Amor à divina chaga”, considerado pelo tradutor como o mais célebre do Poema e um dos mais belos pelo sentimento, viveza e imaginação. Por exemplo este verso: “Ó ferida que abriste / com a lança do amor através do peito divinal / estrada larga para o Coração de Cristo!” E há mais: No verso 4.630 – “O amor que tudo vence, / venceu também a ti !” – percebi a influência em Anchieta do eterno poeta latino Públio Virgílio Marão quando em écloga afirma em alto e bom som a atravessar os séculos: “Omnia vincit amor, et nos cedamus amori” (Tudo vence o amor; cedamos também nós ao amor).

São maravilhosos ainda a alegria da Mãe na ressurreição do Filho: “Primeiro à Mãe se mostra, / porque a Mãe tão grande compete de direito / este primeiro afeto, esta primeira glória. / És a primeira a contemplá-lo vivo / porque viva sempre te brilhou no peito / a fé que ele premia agora com essa honra”. Ou o emocionante capítulo da Morte de Maria Santíssima onde estão os versos: “Ainda tens nos olhos / a imagem do Filho que te roubou a alma / ao subir para os céus. / Ela só anseia revê-lo, só anseia abraçá-lo, / pois a nada sabe amar senão a Deus. / Envia atrás do Filho incessantes suspiros.../”.

Ou finalmente a Exaltação da gloriosa Virgem Maria no Canto V: “Pede, portanto, estremecida Filha; / pois quanto quiser a Filha / tanto fará o Pai! / Pede, portanto, ao Filho, ó Mãe Bondosa;/ tanto fará o Filho! / Pede, portanto, ao Esposo, ó Virgem formosíssima,/ pois quanto quiser a Esposa/ tanto fará o Esposo! / Pede o que quiseres, tudo alcançarás.” Merece transcrição completa, porém, não há dúvida, a Dedicatória do Poema da Virgem, curiosamente deixada para a parte final da obra. A Dedicatória são os últimos versos.

Como a explicar humildemente todo o sentido do Poema, pois dá ali as razões de se ter oferecido como refém: “Eis os versos que outrora, ó Mãe Santíssima, / te prometi em voto, / vendo-me cercado de feros inimigos. / Enquanto entre os Tamoios conjurados, / pobre refém, tratava as suspiradas pazes, / tua graça me acolheu / em teu materno manto / e teu véu me velou intactos corpo e alma. / A inspiração do céu, / eu muitas vezes desejei penar / e cruelmente expirar em duros ferros. / Mas sofreram merecida repulsa meus desejos: / só a heróis compete tanta glória!” Anchieta sonhava em ser mártir.

Agora enfim me sinto realizado: não apenas li o Poema da Virgem, guardado tanto tempo numa estante de minha pequena biblioteca, mas escrevi e publico como primeira matéria do ano de 2018, essa crônica para comentar o livro do Pe. José de Anchieta, cofundador da cidade de São Paulo e canonizado santo em 02.04.2014. E não apenas para comentar, mas para animar o leitor piedoso a buscar ou adquirir e ler sem pressa a obra, pois, graças a Deus, ela continua sendo publicada hoje em dia, como se pode ver no Portal Paulinas. Não esqueçamos que uma moldura histórica envolve este poema místico: é a Confederação dos Tamoios na História do Brasil.


LETTERIO SANTORO – 30.12.2017

Membro da APEG (Associação de Poetas e Escritores de Garça)


 

Comentários

Enviar Comentário

Lojas Garça Online

Tempo Garca