27/11/2017

DESCOBERTA NO MUSEU DE GARÇA

No final da tarde de 18.07.2017, minha cara e rara leitora, fiquei muito contente com uma descoberta feita por mim nas dependências do Museu Histórico e Pedagógico de Garça. Sozinho, no andar de cima, assessorado pelos atenciosos funcionários, vi-me de repente na cidade de Garça do ano de 1968. Um ano de chumbo na política, mas um ano esplendoroso para a Poesia em nosso município.

Em janeiro, o Dr. Marcondes César, talvez o maior poeta local, escreve um poema admirável, denominado “Poetas do Correio de Garça”, publicado em 14.01.1968, onde elogia outros três poetas com os quais, acredito, se dava bem: Samaritain (pseudônimo do Prof. José Porfírio), Dejanira (mãe de Dalva Magalhães Parreira), e Cesarino (Professor e Diretor da Escola Técnica), todos eles colaboradores apreciados do jornal Correio de Garça.

O poema era de janeiro de 1968, mas só em junho a poetisa Dejanira Magalhães estampa no jornal Correio de Garça o soneto “Ao Dr. Marcondes       César (por haver incluído o seu nome entre os Poetas de Garça!”). De um lado, lisonjeada, agradece a homenagem; de outro sentindo-se modestamente um “cravo de defunto” (nome de uma flor) “no meio de um buquê de régias flores”, termina ela o seu soneto em resposta aos elogios de Marcondes César.

Eis senão quando, a 15.08.1968, outro homenageado no grande poema de Marcondes César – o Professor e Poeta Cesarino Avino Sêga – assina e publica, no mesmo jornal Correio de Garça, o soneto “Dois Cravos e uma rosa”. Não se cita o nome de ninguém. Mas ao ler atentamente o poema de Cesarino, observei aquele estranho “cravo de defunto” no início do primeiro terceto. Aí me veio a revelação.

Quem se sentia “cravo de defunto” “no meio de um buquê de régias flores” senão a poetisa Dejanira Magalhães, mãe de Dalva Magalhães Parreira, uma das maiores cronistas da época? Pois foi dito e feito. A 22.08.1968, ainda no mesmo jornal Correio de Garça, Dejanira Magalhães edita novo soneto, denominado “Respondendo a um Poeta”, cujo nome só revela, como chave de ouro no último verso: “- Poeta Cesarino Avino Sêga”.

Através desses quatro poemas pude ver como era intensa, naquele ano terrível para a política brasileira, a vida literária garcense, envolvendo o Dr. Marcondes César, com certeza o mais velho deles, o Prof. José Porfírio, ilustre Vereador por três mandatos, Dejanira Magalhães (Mãe de Dalva Magalhães Parreira) e o Prof. Cesarino Avino Sêga. Não havia uma Associação de Poetas e Escritores, como temos hoje em Garça, mas havia vida literária e criação.

Aliás, Cesarino Sêga, em homenagem póstuma a Dejanira, falecida em fins de 1968, na data de 08.12.1968 estampa no jornal Correio de Garça a crônica “Uma Poetisa que poucos conheceram.” Encravado na crônica onde Cesarino elogia o estilo e a poesia de Dejanira, o autor publicou um dos últimos sonetos de Dejanira Magalhães, o deslumbrante “O Ipê”, cuja florada Cesarino Sêga cantou também em sua obra.

Assim, como se viu, o triste ano de 1968, ano do AI-5 que silenciou o Brasil, aqui em Garça foi o ano da Poesia, da janeiro a dezembro. Iniciado por Marcondes César com o elogio a três poetas, colaboradores do mesmo jornal, e terminado por Cesarino Sêga anunciando a morte de Dejanira Magalhães. Foi uma linda descoberta feita na consulta aos jornais antigos no Museu a me apontar para uma vida literária consistente na Garça tranquila da época.

Mas a descoberta não parou em mim. Dias depois, na reunião da APEG de 23.07. 2017, permiti-me abusar da bondade dos companheiros, e narrei para eles a minha descoberta, lendo um a um, conforme a ordem já citada no corpo desta crônica, os quatro poemas dos três vates a encher de Poesia não só as páginas dos jornais, mas certamente também os corações dos leitores e das famílias onde os saraus eram frequentes.

Minha feliz intervenção, no entanto, difundiu-se depois, quase sem querer, para a cidade inteira, pois agradou particularmente a uma companheira de APEG presente à reunião – a Christina Sêga, filha do poeta Cesarino Avino Sêga, e irmã de Maria do Rosário P. Sêga – que de Brasília, depois, para comemorar o Dia do Poeta em outubro, tudo fez para que os poemas da descoberta declamados por mim, fossem publicados no jornal Comarca de Garça.

Graças à indispensável colaboração da apeguiana jornalista Veridiana Sganzela, eis avisto com alegria, publicados na edição de 19.10.2017 do referido jornal, sob o título TRIELO, os quatro poemas dos três bardos garcenses, poemas extraídos do livro CANCIONEIRO GARCENSE (Vol.2), finalmente pronto e já à disposição dos leitores interessados na Biblioteca Municipal. Foi praticamente uma página inteira do octogenário periódico, e com letra grande.

Assim, quase 50 anos depois, o TRIELO, luta com armas iguais de três poetas de Garça, das páginas do já extinto jornal Correio de Garça, passou no século XXI, no início do terceiro milênio, para as páginas vivas do “Comarca”, quase como um eco da Poesia de Garça da década de 1960 a se expandir ainda hoje por nossas plagas. Como uma espécie de lenitivo para os males que nos afligem ainda hoje, a lembrar os anos de silêncio e chumbo iniciados em 1968.

A descoberta feita no Museu de Garça é uma das tantas e pequenas descobertas feitas durante a dura travessia do deserto dos jornais antigos, ano após ano, pequenos oásis de delícia a me recompensar de quando em quando da aridez, da monotonia, do desânimo. Mas foi dessa travessia, dolorosa e deliciosa ao mesmo tempo, que resultaram os dois volumes do CANCIONEIRO GARCENSE, revelando-me a verdadeira poesia sobrevivente em Garça.

Para mim é um orgulho enorme o resultado desse levantamento iniciado no Museu em 2006 sob a coordenação da Adriana Ramos, e terminado em 2017, também no Museu sob a coordenação do Carlinhos Gomes de Sá, aos quais agradeço a atenção, a disponibilidade e a confiança a mim dedicadas. Com isso consegui realizar o meu Projeto Poético, consistente no ROMANCEIRO DE GARÇA (poesias próprias) e nos dois volumes do CANCIONEIRO GARCENSE.


LETTERIO SANTORO – 25.11.2017

Membro da APEG

 

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