30/10/2017

GARÇA DAQUI A DEZ ANOS

Vibrei com a manchete da edição de 24.10.2017 do jornal Comarca de Garça a gritar logo cedo diante de meus olhos: “Encontro ‘Café com o Presidente´ discute Garça daqui a dez anos”. Como esse foi o primeiro de uma série de encontros previstos durante o principiante mandato do empresário João Francisco Galhardo à frente da ACIG, desejo eu, como cidadão, também contribuir com algumas ideias para o grande diálogo municipal, iniciado na segunda-feira, dia 23 de outubro de 2017.

            As fotos do periódico mostram os primeiros convidados – o prefeito João Carlos, vereadores, secretários municipais, representantes do SAAE, da Fiesp, do Ciesp, das Lojas Maçônicas, do Sicoob, da Fatec/Garça, da Faef e outros. Bonita a fotografia dos participantes em volta de longa e farta mesa, presente uma ou outra mulher no meio de muitos homens. Excelente a ideia do atual Presidente da Acig, se não se ativer a convidar sempre as mesmas entidades, mas chamar para o debate todos os segmentos de nossa sociedade pluralista.

            É evidente, para bem da verdade, não ser a iniciativa, no município de Garça, nenhum ovo de Colombo de originalidade. Lembro-me, por exemplo, de haver participado, anos atrás, de uma Conferência Municipal da Cidade, onde propostas concretas foram levantadas para ser encaminhadas à Conferência Estadual e de lá para a Nacional. Tema de todas elas: “Da cidade que temos para a cidade que queremos.” Da Conferência Municipal participaram, de manhã e à tarde, representantes do poder público, de entidades e cidadãos comuns.

            A essa Conferência também não compareceram todos os segmentos nem todas as lideranças, nem todas as autoridades locais, entre as quais a gente lamenta a ausência de autoridades religiosas (sacerdotes e pastores), de juízes e promotores da cidadania, a lidar com todos os problemas e necessidades do povo garcense. Em compensação nela alguns cidadãos e representantes da sociedade civil organizada, durante boas horas, sonhamos, a ouvir e opinar, com propostas escritas, com a Cidade que queremos, no futuro próximo.

            Claro que a cidade que temos hoje é diferente da que queremos para amanhã, daqui a dez anos. Hoje infelizmente constata-se a existência de uma “face oculta” de Garça que, como a da lua, não aparece muita vez a olho nu, mas pode se verificar nos milhares de seres humanos sem casa, sem comida, sem emprego, sem mínimas condições de vida, alguns perdidos na droga, ou em situação de risco de infracionar, apesar da boa vontade e do esforço oficial e coletivo. Quem ajuda esses seres humanos sabe de seu sofrimento e desespero.

            A “face oculta” não nasce da natureza; ela é provocada pela injusta e iníqua desigualdade social num país onde poucos têm demais, e milhões não têm nada. De alguma forma ela pode diminuir ao longo do tempo com políticas públicas e com melhor distribuição de renda, como se vinha fazendo, nacionalmente, nos anos do governo Lula (2003-2010), quando milhões foram retirados da linha de miséria, através de programas sociais. O mesmo haveria de acontecer a nível de município, a fim de diminuir a injustiça social.

            Ora, onde há injustiça, não há paz. A “face oculta” de Garça é também a manifestação dos opressores sobre os oprimidos, criando na cidade cidadãos de primeira, de segunda ou terceira categoria. Por mais que a sociedade organizada, como acontece entre nós, se mobilize para aliviar com solidariedade o sofrimento de instituições e pessoas necessitadas, se continuar a situação estrutural de injustiça, estará apenar enxugando gelo. Mas o que posso eu, como cidadão, fazer para despertar a consciência de cidadãos mais jovens?

            Alguma coisa sempre se pode fazer. Por exemplo, que no VII Concurso APEG de Literatura em 2018, com alunos de escolas públicas (estaduais e municipais) e privada, ou hoje com os poucos participantes da Oficina de Escrita Criativa se escreva sobre o tema “Garça daqui a dez anos”, provocando a imaginação dos jovens na esperança de alguma sugestão original factível e benéfica para todos. E já pensaram se todas as escolas do município de Garça de todos os níveis discutissem, redigissem, desenhassem sobre o assunto?

            Aliás, no dia 31 de outubro p.p., na Secretaria Municipal de Educação, a Comissão Coordenadora do Plano Municipal de Educação se reúne para monitorar de perto as propostas definidas em 2015 para os próximos dez anos. Note o leitor benévolo que já falei sobre propostas concretas da Conferência Municipal da Cidade; já temos as propostas do Plano Municipal da Educação (2015-2025); já existem também propostas de várias outras Conferências Municipais (Saúde, Cultura, Assistência Social). Onde estão? Que tal concretizá-las já?

            Ou pelo menos sistematizá-las todas numa certa ordem de prioridade, até para serem levadas de imediato à mesa do “Café com o Presidente” como colaborações úteis, preciosas de encontros anteriores de cidadãos e autoridades, onde há tempo já se levantaram propostas concretas que, inclusive, se transformaram em Plano Nacionais naquilo que tenham em comum com os municípios. Muita gente em nossa cidade sonhou antes de nós a cidade que queremos. Deixaremos de lado os sonhos de nossos antecessores?

            Vou além. Se o problema é a falta de dinheiro para as políticas públicas, continuaremos com a polêmica sobre a destinação da antiga Rodoviária: se vira centro comercial ou Estação Ciência? De repente uma promessa de campanha do atual Prefeito é mais importante do que um projeto já definido, com verba da educação destinada para a Estação Ciência, faltando apenas a ousadia de dar continuidade a algo já começado (porque já estava em andamento)? Isso sim é desperdício de dinheiro público. É pura satisfação de voluntarismo partidário.

            A política busca o bem comum, e não o simples cumprimento de promessa. Dê um passo de ousadia, Prefeito João Carlos. Execute o projeto já pronto, que, este sim, lhe dará uma glória imorredoura. Sem dizer que até agora não houve a prometida consulta popular sobre a destinação daquele espaço.  Enquanto se esbanja dinheiro público com promessas descabidas de campanha eleitoral, e a crise nacional se aprofunda com as decisões no âmbito do governo federal, a “face oculta” de Garça só tende a aumentar.

            Então não basta consultar a sociedade civil sobre a Garça que queremos, sobre Garça daqui a dez anos. Precisamos operacionalizar as propostas já levantadas ao longo dos anos e que ainda não tenham porventura sido concretizadas. Além disso o Prefeito há de otimizar os recursos como os já destinados para a Estação Ciência, e deixar de lado simples promessas. Caso contrário, essas reuniões de “Café com o Presidente” cairão no descrédito ou no esquecimento e Garça daqui a dez anos poderá sim ser pior do que é hoje.

 

 

LETTERIO SANTORO – 28.10.2017

Membro da APEG (Associação de Poetas e Escritores de Garça)

 

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